A COMPRA DA SINANGOGA DE TOMAR EM 1923 POR SAMUEL SCHWARZ | Arquivo Distrital de Santarém
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1 de Setembro de 2026

A COMPRA DA SINANGOGA DE TOMAR EM 1923 POR SAMUEL SCHWARZ

PT/ADSTR/NOT/18CNTMR/001/0008

1923, maio, 5 – Tomar
Escritura de venda que fazem Joaquim Cardoso Tavares e esposa, de Tomar, a Samuel Schwarz.
PT/ADSTR/NOT/18CNTMR/001/0008 – Portugal. Arquivo Distrital de Santarém. Cartório Notarial de Tomar – 18.º ofício. Notas para escrituras diversas, liv. 8, f. 40-41v.

O mês de setembro de 2026 é marcado pelo início das principais festas do calendário judaico, designadamente o ano novo judaico (Rosh Hashaná), servindo-nos de pretexto para destaque da escritura de compra da Sinagoga de Tomar por Samuel Schwarz em 1923, conservada no Arquivo Distrital de Santarém, e exarada no Cartório Notarial de Tomar, do notário Alberto Cardoso Delgado (ADSTR, Cartório Notarial de Tomar – 18.º ofício).

 

1.SAMUEL SCHWARZ (*1880-02-12 | †1953-06-10): O ENGENHEIRO DE MINAS E A SUA AÇÃO EM PORTUGAL

Retrato de Samuel Schwarz

Samuel Schwarz nasceu em Zgierz, na Polónia, a 12 de fevereiro de 1880. Foi o primogénito de dez irmãos de uma família judaica. O pai, Isucher Moshe Szwarc, bibliófilo e sionista ligado à Haskalah tardia (iluminismo judaico), marcou-lhe o gosto pelos livros e pela cultura hebraica.

Formou-se em engenharia de minas na École Supérieure des Mines de Paris, em 1904, aos vinte e quatro anos. A carreira profissional foi internacional e itinerante: trabalhou em explorações petrolíferas em Baku (Azerbaijão); em minas de carvão em Sosnowiec (Polónia) e em Inglaterra; entre 1907 e 1910, nas minas de estanho da empresa Arnoya Mining, em Conso, província de Ourense (Espanha); e, em 1911, numa mina de ouro em Alagna-Valsesia, no Piemonte italiano.

Em 1914, casou em Odessa com Agatha Barbash, filha do banqueiro Samuel Barbash. A viagem de núpcias trouxe o casal a Portugal, no verão de 1914. A eclosão da Primeira Guerra Mundial impediu o regresso à cidade do então Império Russo, determinando a fixação definitiva no país. Deste casamento nasceu Clara Schwarz (Santa Isabel, Lisboa, 1915-02-14), que veio a casar civilmente com o jornalista e escritor cabo-verdiano Artur Augusto da Silva a 14 de outubro de 1940.

Em Portugal, e desde 1915, Samuel Schwarz exerceu engenharia de minas ao serviço da Sociedade Minero-Metalúrgica de estanho e tungsténio da empresa do Casteleiro, dirigindo trabalhos numa mina de volfrâmio em Vilar Formoso e numa mina de estanho em Belmonte.

A exploração mineira associada às necessidades industriais da Primeira Guerra Mundial, colocaram Schwarz numa posição privilegiada de contacto com comunidades rurais isoladas, que se revelou decisiva para a carreira de engenheiro e para a obra de historiador e etnógrafo. É em missão profissional na região da Beira Interior, em 1917, que Schwarz identifica, entre os habitantes de Belmonte, resquícios de práticas judaicas clandestinas — a chamada “descoberta” dos marranos (cristãos-novos) de Belmonte, publicada em 1924 na revista Arqueologia e História.

Foi membro da Ordem dos Engenheiros e da Associação dos Arqueólogos Portugueses, presidiu à Câmara de Comércio Polaca em Portugal e foi Presidente da Assembleia Geral da Comunidade Israelita de Lisboa.

Naturalizado em 1939, interveio junto das autoridades portuguesas para tentar obter vistos para familiares refugiados na Europa em guerra, sendo a sua família uma das protegidas pela rede de vistos de Aristides de Sousa Mendes em 1940.

Poliglota notável — falava russo, polaco, inglês, alemão, francês, italiano, espanhol, português, hebraico e ídiche —, Schwarz colaborou com a imprensa periódica portuguesa e estrangeira, tendo publicado artigos no Jornal de Comércio e no Diário de Notícias e respondido a artigos antissemitas da imprensa da época, nomeadamente no jornal A Voz.

A nível cultural e científico publicou, entre 1910 e 1958, estudos de referência sobre epigrafia hebraica, criptojudaísmo e história judaica em Portugal:

 

2. A ESCRITURA DE COMPRA DA SINAGOGA DE TOMAR (5 DE MAIO DE 1923)

A sinagoga de Tomar, edificada entre cerca de 1430 e 1460 por determinação do Infante D. Henrique, governador da Ordem de Cristo, serviu a comunidade judaica de Tomar até à conversão forçada e ao encerramento das sinagogas portuguesas, decretados por D. Manuel I no final do século XV (1496).

A partir de 1516, o espaço foi utilizado como cadeia pública; entre finais do século XVI e inícios do XVII, foi adaptado a culto católico, sob a invocação de Ermida de São Bartolomeu. Já no século XIX funcionou sucessivamente como palheiro, celeiro e armazém de mercearias e vinhos.

Em 1920, um grupo de arqueólogos portugueses liderado pelo coronel Garcez Teixeira reconheceu no edifício a antiga sinagoga medieval:

“A sua planta (…) é rectangular, medindo interiormente 9m,50 de fundo por 8m,25 de largo. Acha-se (…) com sua fachada principal voltada ao norte. Uma única porta ladeada por duas janelas gradeadas dá serventia sôbre a rua. (…) Na parede do fundo (…) ha duas janelas, uma sôbre a outra. (…). Tem apenas um único pavimento (…). A cobertura é constituida por nove abóbadas de aresta, a meia vez de tijolo, geradas por seis berços, três longitudinais e três transversais, apoiando-se nas paredes e em quatro colunas de cantaria. (…) Um telhado de telha mourisca resguarda exteriormente as abóbadas.”

Retrato de Francisco A. Garcês Teixeira

A antiga sinagoga de Tomar

Em 29 de julho de 1921, o imóvel foi classificado como Monumento Nacional — classificação que, note-se, precedeu em dois anos a sua aquisição por Samuel Schwarz.

A escritura de compra e venda foi outorgada em Tomar a 5 de maio de 1923, perante o notário Alberto Cardoso Delgado, tendo como vendedores Joaquim Cardoso Tavares, e mulher, e, como comprador, o engenheiro Samuel Schwarz.

O instrumento notarial identifica o imóvel como uma “casa que serve de armazém, sita na rua Nova, desta cidade [Tomar], a confrontar pelo norte com a rua Nova actualmente a rua Joaquim Jacinto, nascente e sul com Dona Maria do Carmo Oliveira e poente com Manuel Testa, descrita na Conservatória desta comarca sob numero seis mil quinhentos noventa e dois”.

De acordo com a escritura de 28 de março de 1939, em que Samuel Schwarz, e esposa, doam ao Estado Português o imóvel para instalação de um museu hebraico, sabemos que a transmissão foi registada a favor de Samuel Schwarz pela inscrição número 9388, a folhas 58 do livro G-15 da mesma Conservatória. O documento certifica ainda que o “…prédio, que tem servido de armazém, e que anteriormente serviu a Sinagoga, sito na rua Nova, hoje rua Joaquim Jacinto…”  se encontrava livre de hipotecas, penhores ou quaisquer outros ónus.

 

3.AS PRINCIPAIS FESTAS JUDAICAS E A SUA CELEBRAÇÃO EM 2026 (ANOS 5786-5787)

A Sinagoga de Tomar é hoje reconhecida como a mais antiga sinagoga portuguesa que se mantém de pé, e um dos escassos edifícios sinagogais medievais sobreviventes na Península Ibérica anteriores à expulsão de 1497.

A vocação museológica e memorial da Sinagoga de Tomar, ainda que hoje sem comunidade judaica residente na cidade, projeta-se naturalmente sobre o calendário litúrgico judaico contemporâneo. O ano civil de 2026 é atravessado pela transição entre os anos hebraicos 5786 e 5787, cujas principais festividades se sintetizam no quadro seguinte, três delas neste mês de setembro:

Festa Data civil 2026 (ao anoitecer) Data hebraica (5786-5787) Significado essencial
Tu BiShvat 1 de fevereiro 15 Shevat 5786 “Ano-novo das árvores”; celebra-se o renascimento da natureza, com consumo simbólico de frutos, em particular os “sete frutos” de Israel (Trigo, cevada, videira, figueira, romã, oliveira e tamareira).
Purim 2 de março 14 Adar 5786 Salvação dos judeus da Pérsia; lê-se a Meguilá (livro de Ester), trocam-se presentes (mishloach manot) e há festejos e disfarces.
Pessach (Páscoa judaica) 1 a 9 de abril 15-22 Nissan 5786 Recorda o Êxodo do Egito e a libertação da escravidão do povo judeu; celebra-se o Seder, refeição ritual com a Hagadá, e observa-se a interdição do pão levedado (chametz).
Yom HaShoah 13 de abril 27 Nissan 5786 Dia de memória das vítimas do Holocausto, instituído no calendário civil de Israel e observado pelas comunidades judaicas da diáspora.
Lag BaOmer 4 de maio 18 Iyar 5786 Interrompe o período “quaresmal” da Contagem do Ómer; tradicionalmente marcado por fogueiras e casamentos.
Shavuot (Pentecostes judaico) 21 a 23 de maio 6-7 Sivan 5786 Celebra a entrega da Torá no monte Sinai; associada ao estudo noturno da Torá e ao consumo de laticínios.
Tishá BeAv 22 a 23 de julho 9 Av 5786 Jejum de vinte e cinco horas que assinala a destruição do Primeiro e do Segundo Templo de Jerusalém e outras tragédias históricas do povo judeu.
Rosh Hashaná (Ano Novo judaico) 11 a 13 de setembro 1-2 Tishrei 5787 Início do ano civil judaico 5787; toca-se o shofar (corno de carneiro) e celebram-se refeições simbólicas com maçã e mel, desejando um ano doce.
Yom Kippur (Dia do Perdão) 20 a 21 de setembro 10 Tishrei 5787 O dia mais sagrado do calendário judaico; observa-se jejum total, oração intensa e pedido de perdão.
Sucot (Festa das Cabanas) 25 de setembro a 2 de outubro 15-21 Tishrei 5787 Recorda a proteção divina na travessia do deserto; constroem-se cabanas temporárias (sucot) e utilizam-se as “quatro espécies” de vegetais rituais (tamareira, murta, salgueiro e cidra).
Shemini Atzeret e Simchat Torá 2 a 4 de outubro 22-23 Tishrei 5787 Encerram o outono; Simchat Torá assinala a conclusão e o reinício da leitura anual da Torá, com procissões dos rolos sagrados.
Chanucá (Festa das Luzes) 4 a 12 de dezembro 25 Kislev – 2 Tevet 5787 Comemora a dedicação do Templo de Jerusalém e o milagre do azeite; acendem-se progressivamente as velas do candelabro de oito braços (chanukiá).

 

 4. A SINAGOGA HOJE: MUSEU LUSO-HEBRAICO ABRAÃO ZACUTO

Desde 1939, o edifício acolhe o Museu Luso-Hebraico Abraão Zacuto, cujo nome homenageia o astrónomo, matemático e rabino Abraão Zacuto, autor de tábuas astronómicas utilizadas pelos navegadores portugueses.

O espólio museológico integra lápides funerárias hebraicas provenientes de vários pontos do país — destacando-se a estela de Faro, de 1315, referente ao rabi Joseph, e a lápide de 1308, alusiva à fundação da segunda sinagoga de Lisboa —, bem como doações de visitantes judeus de todo o mundo.

Em 15 de outubro de 2019, após obras de reabilitação financiadas através do programa Portugal 2020 e do mecanismo EEA Grants, foi inaugurado, em espaço contíguo, o Núcleo Interpretativo da Sinagoga de Tomar, organizado em dois pisos — um dedicado às estruturas arqueológicas do local e outro à interação com conteúdos multimédia sobre a presença judaica na cidade.

 

 

BIBLIOGRAFIA

Fontes Manuscritas:

 

Artigos/Estudos:

 

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