1 de Agosto de 2026
JOAQUIM DA SILVA TAVARES, SJ (1866-1932) | CARDIGUENSE, JESUÍTA, NATURALISTA, CECIDÓLOGO E FUNDADOR DA BROTÉRIA | NOS 160 ANOS DO SEU NASCIMENTO
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1866, agosto, 28 – Cardigos (Mação)
Batismo de Joaquim, filho de Joaquim Tavares e de Maria Joaquina Vieira.
PT/ADSTR/PRQ/PMAC03/001/00004 – Portugal. Arquivo Distrital de Santarém. Paróquia de Cardigos [Mação]. Registos de batismo, liv. 4; f. 40-40v. [imagem m0081-0082.jpeg].
TRANSCRIÇÃO:
[À margem] Numero 37 Monte do Meio de São Bento Joaquim
Aos vinte e oito dias do mez d’Agosto do anno de mil oitocentos e sessenta e seis nesta Egreja Parochial de Nossa Senhora d’Assumpção de Cardigos = Concelho de Villa de Rei = Districto Ecclesiastico da Villa de Proença a Nova = Grão Priorado do Crato = Nulius Diocesis = anexo in spiritualibus ao Patriarchado de Lisboa baptizei solemnemente hum individuo do sexo masculino, a que dei o nome de Joaquim, que nasceo no lugar do Monte do Meio desta freguezia a dezassete do so [Do so]bredito mez e anno pelas oito horas da noute, filho legitimo / segundo do nome / do primeiro Matrimonio por parte de seu pai, Joaquim Tavares de profissão agricula, e do segundo por parte de sua mai Maria Joaquina Vieira, que tinha ficado de José Farinha, naturaes do lugar do Vergão Fundeiro, termo e freguezia da Villa de Proença a Nova, moradores no lugar do Monte do Meio de São Bento, parochianos desta predita freguezia; neto paterno de Bernardo Tavares já defunto, natural do lugar do Cazalinho desta freguezia, e de Maria Lopes já defunta, natural, e moradores que forão no predito lugar do Vergão Fundeiro. Materno de Luiz Gaspar, natural do mencionado lugar do Vergão Fundeiro, aonde são moradores, e d’Anna Maria, natural do lugar da Chaveira desta freguezia. Foi padrinho José Antonio cazado de profissão agricula do lugar do Monte Fundeiro desta freguezia e Ignacia Solteira de profissão serviço domestico e rural, filha de José Nunes do lugar de Vergão Cimeiro da predita freguezia da Villa de Proença a Nova, os quais sei serem os proprios. E para constar lavrei em duplicado este assento, que depois de ser lido e conferido perante os padrinhos, com nenhum assignei. Era ut supra. O Parocho José Antonio Nunes de Souza e Azevedo. Declaro que os padrinhos não assignarão por não saberem escrever. O Parocho José António Nunes de Souza e Azevedo.
1. JOAQUIM DA SILVA TAVARES, SJ (*1866-08-17 | †1931-09-02)
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A biobibliografia sobre Joaquim da Silva Tavares surge logo após a sua morte, no artigo necrológico de Serafim Leite, “J. S. Tavares”, publicado na revista Brotéria, em 1931. Um ano depois, Afonso Luisier, pelo estudo in memoriam oferece-nos o que constitui até hoje uma das fontes mais detalhadas sobre o percurso científico do jesuíta, seu confrade e antecessor na direção da revista Brotéria. Mais recentemente, José Vaz de Carvalho sintetizou os dados biográficos essenciais no Diccionario Histórico de la Compañía de Jesús (2001, p. 3706), obra de referência para a prosopografia jesuítica. O contributo mais completo e atualizado é o de Francisco Malta Romeiras, responsável pela entrada biobibliográfica sobre Silva Tavares no Dicionário de Cientistas, Engenheiros e Médicos em Portugal (CIUHCT).
Joaquim da Silva Tavares nasceu em Monte do Meio de São Bento, núcleo da aldeia de Casais de São Bento, freguesia de Cardigos (Mação) a 17 de agosto de 1866, “de pais pobres, mas profundamente cristãos”, segundo a caracterização de Serafim Leite. Curiosamente, nasceu nas imediações da praia fluvial de Cardigos, estância balnear fluvial bastante concorrida nos meses de julho e agosto.
Filiação: Joaquim Tavares, agricultor, e Maria Joaquina Vieira
Avós Paternos: Bernardo Tavares e Maria Lopes
Avós Maternos: Luís Gaspar e Ana Maria
Ingressou na Companhia de Jesus com apenas catorze anos, a 13 de novembro de 1880, tendo cumprido dois anos de noviciado no Barro, em Torres Vedras.
Seguiu-se a formação regular da Ordem: os estudos de Humanidades, entre 1882 e 1885, e de Filosofia, entre 1885 e 1888, no Colégio de São Francisco Xavier, em Setúbal. A Teologia, disciplina que os jesuítas portugueses eram então obrigados a cursar fora do país, foi estudada primeiro em Uclés, na província de Cuenca (Espanha), entre 1894 e 1897, e depois em Vals-près-le-Puy, na região francesa da Haute-Loire (1897-1898). Foi ordenado sacerdote em Uclés a 20 de junho de 1897 e, entre 1898 e 1899, permaneceu em Viena de Áustria em preparação para a profissão dos últimos votos religiosos.
De saúde frágil, desde jovem sofreu de problemas hepáticos que se agravaram na fase final com um diagnóstico de arteriosclerose. Ainda assim, celebrou o 50.º aniversário da profissão religiosa em 1930.
Faleceu em Paris, a 2 de setembro de 1931 (n.º 3801), no decurso de uma estadia relacionada com tratamentos nas termas de Royat, visita à Exposição Colonial Internacional e preparação de artigo para a Brotéria.
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TRANSCRIÇÃO:
[À margem] 3801 DA SILVA TAVARES / DA SILVA TAVARES./Approuvé ce renvoi et la rature d’un mot.- / (ass) / 10, rue de Dantzig./ Approuvé ce second renvoi.- / (ass)
Le deux septembre mil neuf cent trente-un, six heures quinse minutes, est décédé en son domicilie, Jaoquin DA SILVA TAVARES, né à Cardigos (Portugal) le dix-sept août mil huit cent soixant-six, Prêtre, fils de Joaquin CARDIGOS et de Maria IGNATIA, sans autres renseignements connus du déclarant; célibataire. Dressé le trois septembre mil neuf cent * * trente-un, dix heures, sur la déclaration de Romain LABARTHE, vinght-neuf ans, employé, domicilié 148, rue Lecourbe, qui, lecture faite, a signé avec Nous, Lucien Lorin, adjoint au Maire du XVe Arronsidissement de Paris, Officier de la Légion d’Honneur./ L.
(ass)
2.FORMAÇÃO CIENTÍFICA E CARREIRA DOCENTE
Ao contrário de outros naturalistas seus contemporâneos, Silva Tavares não teve formação académica avançada na área da botânica. A sua competência foi sendo construída essencialmente de forma autodidata, através da prática continuada de observação, colheita e classificação de espécimes.
De regresso a Portugal, depois da formação teológica, ensinou Física, Química e Mecânica no Colégio de São Francisco Xavier (1899-1900). Entre 1900 e 1907 esteve no Colégio de São Fiel (Fundão) a lecionar Física, Química, História Natural, Latim e Grego. Acumulou com a direção do herbário e do museu de história natural. Assumiu o reitorado entre 3 de julho de 1908 e 5 de outubro de 1910. São Fiel foi espaço determinante para a atividade de coleção e estudo de cecídias.
Com a implantação da República e a expulsão dos Jesuítas, Silva Tavares partiu para o exílio, chegando a Salamanca a 13 de outubro de 1910. A 7 de novembro embarcou para Buenos Aires. Seguiu depois para a Baía (Brasil), onde, em 1912, restabeleceu a publicação da Brotéria, então subtitulada “Revista Luso-Brasileira”. Permaneceu no Brasil até 1914, ano em que regressou a Espanha, fixando-se na Galiza — primeiro em Pontevedra, depois no Colégio de La Guardia.
As suas coleções científicas, confiscadas pelo Governo Provisório, só lhe foram restituídas quando regressou a Portugal, em 1928, apesar das diligências de Ricardo Jorge e Marck Athias, entre outros. Em Portugal, foi convidado a colaborar com o Instituto Rocha Cabral e conseguiu, em 1930, que as séries Botânica e Zoologia da Brotéria passassem a ser subsidiadas pela recém-criada Junta de Educação Nacional.
3.A FUNDAÇÃO E DIREÇÃO DA REVISTA BROTÉRIA
Em outubro de 1902, Joaquim da Silva Tavares fundou, juntamente com os confrades Cândido de Azevedo Mendes, SJ (1874-1943) e Carlos Zimmermann, SJ (1871-1950), a revista científica Brotéria: Revista de Sciencias Naturaes do Collegio de S. Fiel, batizada em homenagem ao naturalista Félix de Avelar Brotero (1744-1828). Tratou-se da primeira e única revista científica, não meramente de divulgação apologética, fundada pelos jesuítas em Portugal.
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Brotéria – Revista de Sciencias Naturaes do Collegio de S. Fiel, 1902 |
Dirigida por Silva Tavares entre 1902 e 1931, a Brotéria estabeleceu mais de uma centena de permutas com publicações científicas nacionais e estrangeiras. Mereceu a atenção de revistas especializadas como o “American Naturalist”, o “Journal of Mycology” ou o “Bulletin of the Torrey Botanical Club”, que passaram a incluir nos seus catálogos anuais as espécies novas descritas pelos jesuítas portugueses.
Por razões de sustentabilidade financeira, a revista foi reestruturada em três séries autónomas — Botânica, Zoologia e Vulgarização Científica —, esta última publicada integralmente em português, com o objetivo de angariar assinantes fora do estrito círculo académico; nela publicou Silva Tavares 174 dos seus artigos, mais de 40% do total de textos surgidos nessa série entre 1906 e 1924. Ao longo de um século de existência da revista (1902-2002), publicaram-se nas suas páginas cerca de 1300 artigos de investigação original e foram descritas 1327 novas espécies de animais e 890 novas espécies de plantas.
Durante a sua sede na Baía, entre 1912 e 1914, período do exílio dos jesuítas, a subsistência financeira da Brotéria dependeu sobretudo dos assinantes brasileiros, uma vez que na Europa restavam apenas 98; esta situação inverter-se-ia por completo até 1927. A revista foi ainda distinguida com duas medalhas de ouro no Brasil: na Exposição do Liceu de Artes e Ofícios da Baía (1913) e na Exposição Internacional do Rio de Janeiro (1922).
4.A OBRA CIENTÍFICA: CECIDOLOGIA E ENTOMOLOGIA
O núcleo da atividade científica de Silva Tavares centrou-se no estudo das cecídias (vulgarmente “galhas”), formações vegetais anómalas resultantes da ação de insetos e outros organismos.
O primeiro trabalho de fôlego sobre a matéria, As Zoocecidias Portuguezas: enumeração das espécies até agora encontradas em Portugal…, saiu nos Anaes de Sciencias Naturaes em 1900-1901, identificando 234 insetos cecidogénicos — 24 deles novos para a ciência — e setenta novas plantas hospedeiras. O estudo valeu-lhe, em 1903, a nomeação como membro correspondente da Academia das Ciências de Lisboa.
Inspirado pelo trabalho do também jesuíta Jean-Jacques Kieffer sobre as cecídias europeias (1901), Silva Tavares publicou em 1905 a sua Synopse das Zoocecidias Portuguesas, com a colaboração de naturalistas como Gonçalo Sampaio e Augusto Nobre, da Academia Politécnica do Porto, e do confrade Afonso Luisier; o estudo incluiu catorze estampas fotográficas de cerca de 240 espécies, opção que o autor justificava pela maior fidelidade da fotografia relativamente ao desenho, prática então dominante nos estudos cecidológicos.
Seguir-se-iam, ao longo de mais de duas décadas, estudos dedicados às cecídias da Madeira (1903, 1905, 1914), da Zambézia (1908, a partir de material recolhido pelo missionário Luís Lopes, SJ), do Brasil, do Gerês, da Argentina (1915, fruto da sua passagem por Buenos Aires) e, sobretudo, da Península Ibérica, matéria a que dedicou uma extensa série de artigos entre 1916 e 1931, culminando na monografia Cynipidae Peninsulae Ibericae (1931), cujo primeiro volume, profusamente ilustrado, chegou a ser publicado, ficando o segundo — com os artigos de 1930-1931 — inacabado devido à sua morte.
Entre os correspondentes científicos com quem manteve relações mais estreitas contam-se os jesuítas Jean-Jacques Kieffer, Joseph e Léon de Joannis e Johann Rick, bem como os naturalistas italianos Alfredo Corti e Mario Bezzi. A partir dos textos de divulgação publicados na Brotéria, reuniu ainda, em 1923, o volume As Fruteiras do Brasil.
5.RECONHECIMENTO CIENTÍFICO
Para além do vínculo à Academia das Ciências de Lisboa, de que foi membro correspondente desde 1903 e sócio efetivo a partir de 6 de março de 1928, Silva Tavares foi cofundador da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais e da Sociedade Ibérica de Ciências Naturais.
Integrou ainda, entre outras, a Reial Acadèmia de Ciències i Arts de Barcelona, a Société Linnéenne, a Sociedad Española de Historia Natural, a Asociación Española para el Progreso de las Ciencias, a Associação Portuguesa para o Progresso das Ciências, a Société Entomologique de France, o Museu Nacional do Rio de Janeiro e a Accademia Pontificia dei Nuovi Lincei, em Roma.
6.OBRAS PRINCIPAIS
Uma consulta à Wikispecies permite-nos um elenco bastante completo da obra de Silva Tavares. Destacamos:
- As Zoocecidias Portuguezas: enumeração das especies até agora encontradas em Portugal e descripção de dezenove ainda não estudadas. Coimbra: Imprensa da Universidade, 1900-1901 (sep. Annaes de Sciencias Naturaes, 7);
- Synopse das Zoocecidias Portuguesas. Braga: Brotéria, 1905 (Brotéria, 4);
- Contributio prima ad cognitionem cecidologiae Regionis Zambeziase. Brotéria: Zoologia, 7 (1908);
- Cécidologie Argentine. Brotéria: Zoologia, 13 (1915);
- Série “Espécies novas de Cynípides e Ceccidomyas da Península Ibérica…”. Brotéria: Zoologia, 14 (1916) a 21 (1924);
- Série “Cecidologia Brasileira”. Brotéria: Zoologia, 16 (1918) a 20 (1922);
- As fruteiras do Brasil. Braga: Brotéria, 1923;
- Os Cynípides da Península Ibérica. Brotéria: Zoologia, 24 (1927) a 27 (1931);
- Cynipidae Peninsulae Ibericae, vol. I. Braga: Brotéria, 1931 (o vol. II ficou incompleto).
BIBLIOGRAFIA
Fontes Manuscritas:
- Arquivo Distrital de Santarém. Paróquia de Cardigos [Mação]. Registos de Batismo, liv. 4; f. 40-40v. [PT/ADSTR/PRQ/PMAC03/001/00004]. [Em linha]. [Consult. 16 jul. 2026]. Disponível na internet: https://digitarq.arquivos.pt/fileViewer/30e398a160c444f8bb366961a45cc9bb?isRepresentation=false&selectedFile=49915198&fileType=IMAGE
- França. Arquivos de Paris. Actes d’état civil: Actes de Décès. 15.eme [Cota 15D348] (Registo 3801/1931). [Em linha]. [Consult. 16 jul. 2026]. Disponível na internet: [Imagem 23].
Estudos:
- CARVALHO, José Vaz de – Joaquim da Silva Tavares. Diccionario Histórico de la Compañía de Jesús. Vol. 4 [Em linha]. Madrid; Roma: Universidad Pontificia Comillas; Institutum Historicum Societatis Iesu, 2001, p. 3706. [Consult. 16 jul. 2026]. Disponível na internet: https://archive.org/details/dhci_all/page/3705/mode/2up?q=%22Joaquim+da+silva+tavares%22
- Joaquim da Silva Tavares S.J.. Wikipédia, a enciclopédia livre [Em linha]. [Consult. 14 jul. 2026]. Disponível na internet: https://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_da_Silva_Tavares_S.J.
- Joaquim da Silva Tavares. Wikispecies [Em linha]. [Consult. 14 jul. 2026]. Disponível na internet: https://species.wikimedia.org/wiki/Joaquim_da_Silva_Tavares
- LUISIER, Afonso – In memoriam. Le R. P. J. da Silva Tavares, S.J.. Brotéria: Ciências Naturais. Vol. 1 [Em linha] (1932), p. 9-34. [Consult. 14 jul. 2026]. Disponível na internet: https://bibdigital.rjb.csic.es/viewer/10972/?offset=#page=7&viewer=picture&o=bookmark&n=0&q=
- ROMEIRAS, Francisco Malta – A fundação da revista Brotéria (1902-2002). Velho Critério [Em linha]. 6 jun. 2015. [Consult. 14 jul. 2026]. Disponível na internet: https://velhocriterio.wordpress.com/2015/06/06/a-fundacao-da-revista-broteria-1902-2002/
- ROMEIRAS, Francisco Malta – Ciência, Prestígio e Devoção: Os Jesuítas e a Ciência em Portugal (séculos XIX e XX). Cascais: Lucerna, 2015.
- ROMEIRAS, Francisco Malta – Tavares, Joaquim da Silva. Dicionário de Cientistas, Engenheiros e Médicos em Portugal [Em linha]. Lisboa: CIUHCT, 2022. [Consult. 14 jul. 2026]. Disponível na internet: https://dicionario.ciuhct.org/tavares-joaquim-da-silva/. DOI: https://doi.org/10.58277/RXNA6324







