5 de Março de 2026
LAURENTINO VERÍSSIMO (1855-1936): “DEFENSOR” DA TORRE DAS CABAÇAS
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1855, outubro, 1 – Santarém, Salvador (Igreja de Nossa Senhora da Piedade)
Batismo de Laurentino, filho de Laurentino Veríssimo e Maria José de Miranda Machado.
PT/ADSTR/PRQ/PTSTR21/001/0001 – Portugal. Arquivo Distrital de Santarém. Paróquia de Salvador de Santarém. Registo de batismos, liv. 1; f. 93v. [imagem m0188.jpeg].
TRANSCRIÇÃO:
[À margem] Laurentino de Laurentino Veríssimo e de D. Maria José de Miranda Machado
Em o primeiro d’outubro de mil oitocentos cinquenta e cinco batizei solenemente nesta paroquial igreja de Nossa Senhora da Piedade freguesia do Salvador a Laurentino que nasceu aos treze de setembro próximo pretérito filho legítimo de Laurentino Veríssimo batizado na freguesia da Ajuda do lugar da Vestiaria concelho de Alcobaça, e de Dona Maria José de Miranda Machado batizada na freguesia do Salvador onde foram recebidos, neto paterno de João Veríssimo, e de Dona Maria Rosa, e materno de Manuel José Machado, e de Dona Rita de Cássia de Jesus de Miranda. Padrinho Joaquim Guedes Amil de que fiz este termo que assino era ut supra.
O vigário Joaquim da Costa Ramos
O documento que destacamos neste março de 2026 serve de mote à memória de uma das figuras mais emblemáticas do panorama cultural escalabitano no dealbar do séc. XIX para o século XX. Pretende ainda assinalar o centenário da recuperação da polémica proposta de demolição do cabaceiro em Santarém. Este monumento nacional, sobranceiro ao edifício que alberga o Arquivo Distrital de Santarém, encontrou risco de demolição em 1896 e, posteriormente, em 1926. A ação de Laurentino Veríssimo, a par de outros, viria a determinar a manutenção e classificação do monumento.
LAURENTINO VERÍSSIMO (*1855-09-13 | †1936-12-07)
Filho de Laurentino Veríssimo e de Maria José de Miranda Machado, nasceu em Santarém a 13 de setembro de 1855, sendo batizado a 1 de outubro desse ano na igreja de Nossa Senhora da Piedade[i] pelo P. Joaquim da Costa Ramos. Era neto paterno de João Veríssimo e Maria Rosa, e materno de Manuel José Machado e Rita de Cássia de Jesus Miranda. Foi seu padrinho o proprietário, comerciante e capitalista Joaquim Guedes Amil[ii].
Sobre a infância pouco nos foi possível apurar. Sabemos que a 14 de maio de 1866, com 10 anos, fez exame preparatório de Instrução Primária para admissão ao Liceu Nacional de Santarém, tendo sido aprovado com 14 valores. A 19 de setembro do mesmo ano, já com 11 anos, solicitou admissão ao “primeiro ano do curso dos Liceus na qualidade de aluno ordinário”, sendo deferido. Através dos assentos das matrículas dos estudantes do Liceu Nacional de Santarém, conservados neste Arquivo Distrital de Santarém, sabemo-lo morador na Rua Direita, em Santarém, ora nos n.ºs 176 (1866), ora no n.º 198 (1868). Nos anos letivos entre 1866 e 1868 terá estudado Português, Francês e Desenho. Nos anos 1868-1869 cursou Português, Latim e Desenho. Os livros de termos de exames registam que a 21 de junho de 1867 e a 27 de junho de 1868 foi aprovado a Português (1.º e 2.º ano(s)), gramática, leitura e análise gramatical e exercícios de construção. A 22 de junho de 1867 reprovou no exame de Desenho linear (1.º ano) sendo aprovado um ano depois com 10 valores. A inexistência de registos posteriores leva-nos a crer não ter tido carreira brilhante na qualidade de estudante.
Em 1893, através de artigo assinado por “Ruarda” sabemo-lo “homem rico e carácter são”, “republicano”, a trabalhar “há mezes apeando casebres em S. Lazaro p´ra substituir por edificações modernas”, a atravessar “a existência com a simplicidade d’um beneditino” e “um dilettant confesso”. Os dotes musicais de Laurentino Veríssimo são atestados pela sua frequência a “dedilhar no rabecão um pezzicato do Solar dos Barrigas” e pelos instrumentos musicais em continuo movimento que deveriam figurar num seu brasão.
A cidade de Santarém deve-lhe “os seus recursos económicos no desbravamento de São Lázaro onde faz construir um bairro para ser habitado por famílias de poucas possibilidades monetárias, abrindo uma larga avenida de acesso, isto em 1894 e que vieram a ter o seu nome” (Varzeano, 2009). Em verdade, o Bairro Laurentino, junto à atual Rua Pedro de Santarém, era constituído por casas de renda económica que conferiram uma identidade própria àquela zona da cidade até meados da década de 1980, altura em que foi demolido para dar lugar a prédios de maior volumetria.
A 13 de janeiro de 1914, com 58 anos, Laurentino Veríssimo foi nomeado para dirigir a Biblioteca Camões. No ano seguinte acumulou com as funções de Diretor do Museu Arqueológico.
Até ao dia 14 de novembro de 1935, data da exoneração, o bibliotecário transformou um modesto acervo de 2 mil livros numa instituição de referência com mais de 18 mil volumes e dinamizou culturalmente o espaço. As atas da Câmara Municipal de Santarém testemunham o seu requerimento, no ano de 1923, para que “… os documentos antigos em manuscrito que existam nos arquivos da Câmara transitem para a biblioteca municipal, o que julga de muito útil engrandecimento daquele estabelecimento.” Ficou a aguardar “…a oportunidade para quando se instalar a Biblioteca “Anselmo Braamcamp Freire”, para onde será removida a biblioteca municipal que ficará a cargo do município” (Moreira, 2021).
No Museu Arqueológico conseguiu quadruplicar o espólio reunido desde 1876 de 200 peças para 800, salvando artefactos raros (como um portal do Convento de São Domingos) e organizando o primeiro inventário científico das peças. O seu mandato coincidiu com a criação de uma Comissão de Salvação dos Monumentos de Santarém em 1916, e que teve atividade durante toda a década de 20, até ao surgimento das Comissões Municipais de Arte e Arqueologia (Custódio, 1994; 1996).
No domínio da historiografia foi um cronista fecundo, escrevendo diversos artigos na imprensa regional, designadamente no Correio da Extremadura, no Combate, no Jornal de Santarém, no Vale do Tejo (Almeirim) e no Terra Branca (Chamusca), de acordo com a recolha de Bibliografia Laurentino Veríssimo, agora ligeiramente ampliada e revista.
Faleceu a 7 de dezembro de 1936, vítima de doença prolongada. De acordo com a edição do Correio da Extremadura, Santarém perdeu “o melhor do seu esforço, quer com a construção dos bairros sociais (…), quer pela dedicação aos seus monumentos e à conservação dos seus valores arqueológicos e artísticos”. Nas cerimónias fúnebres estiveram presentes “representações das colectividades santarenas com os seus estandartes vendo-se pessoas de todas as categorias sociais”.
GUARDIÃO DE SANTARÉM: A LUTA DE LAURENTINO VERÍSSIMO PELA TORRE DAS CABAÇAS
A Torre das Cabaças, um dos ex-libris indiscutíveis de Santarém e um dos seus mais valiosos Monumentos Nacionais, carrega uma história de sobrevivência que quase se perdeu sob a picareta da “modernização”. Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, o edifício que define o horizonte da capital ribatejana esteve, por diversas vezes, no corredor da morte, condenado por uma administração municipal que via no património histórico um obstáculo ao progresso e um encargo financeiro insustentável.
Tudo começou em abril de 1896, quando a Câmara Municipal de Santarém, preocupada com a estabilidade da estrutura, nomeou uma comissão técnica para avaliar a segurança da Torre. O veredito foi pragmático e frio: embora necessitasse de obras, o edifício não era considerado “indispensável” nem de “relevante arquitetura”.
A política de modernização da época já tinha apagado grande parte do legado monumental da cidade e o destino da Torre parecia selado. Valeu, então, a indignação pública de figuras como Ramalho Ortigão que, na sua obra O Culto da Arte em Portugal, protestou veementemente contra este atentado cultural, conseguindo travar a demolição temporariamente.
Trinta anos depois, em 1926, o fantasma da demolição regressou. Os técnicos da autarquia voltaram a classificar o monumento como “vulgar” e “desprovido de valor”. Foi neste cenário crítico que emergiu a figura de Laurentino Veríssimo. Funcionário da própria Câmara, tornou-se o principal dinamizador da recém-criada Comissão de Salvação dos Monumentos de Santarém, mobilizando jornais locais como o Correio da Estremadura e O Combate.
Na edição de 20 de março de 1926 do Correio da Extremadura é publicado o ofício dirigido ao Conselho de Arte e Arqueologia para que se proceda à classificação do cabaceiro. Assistiu-se, assim, a um movimento de opinião pública em defesa do património. Laurentino pagou um preço alto pela sua audácia: foi alvo de uma pena de suspensão de trinta dias, com a perda total de vencimentos. No entanto, o seu sacrifício foi vitorioso. O parecer da Comissão chegou às instâncias nacionais e, a 3 de fevereiro de 1928, o Decreto nº 14.985 elevou finalmente a Torre ao estatuto de Monumento Nacional.
À data do falecimento de Laurentino Veríssimo (1936) a autarquia, que anos antes o havia punido, tentou redimir-se pagando as despesas do funeral e registando um profundo voto de pesar em ata camarária.
Hoje, o seu nome batiza uma praceta da cidade, mas o seu verdadeiro padrão é a Torre das Cabaças que persiste devido à coragem de um santareno que, na sua ação, sempre privilegiou a preservação do património da cidade.
BIBLIOGRAFIA
Fontes Manuscritas:
- Arquivo Distrital de Santarém. Paróquia de Salvador de Santarém. Registo de batismos, liv. 1; f. 93v. [PT/ADSTR/PRQ/PSTR21/001/0001]. [Em linha]. [Consult. 28 fev. 2026]. Disponível na internet: https://digitarq.arquivos.pt/fileViewer/e8d75816a4f34b039b1d02cc66d6e3f1?isRepresentation=false&selectedFile=50080108&fileType=IMAGE
- Arquivo Distrital de Santarém. Paróquia de Salvador de Santarém. Registo de óbitos, liv. 4; f. 1v. [PT/ADSTR/PRQ/PSTR21/003/0004]. [Em linha]. [Consult. 28 fev. 2026]. Disponível na internet: https://digitarq.arquivos.pt/fileViewer/e4464e7dff364e28b058fd7ec10277b7?isRepresentation=false&selectedFile=50079614&fileType=IMAGE
- Arquivo Distrital de Santarém. Liceu Sá da Bandeira. Requerimentos. [PT/ADSTR/ACD/LSB]. [Em organização].
- Arquivo Distrital de Santarém. Liceu Sá da Bandeira. Assentos de Matrículas. [PT/ADSTR/ACD/LSB]. [Em organização].
Fontes Impressas:
- Ruarda – Aguarelas. [Em linha] Correio da Extremadura. 124 (19 agost. 1893) [Consult. 26 fev. 2026]. Disponível na internet: https://arquivo.correiodoribatejo.pt/2022/03/30/correio-da-extremadura-no124-19ago1893/
- Torre das Cabaças. Relatório da comissão technica… [Em linha] Correio da Extremadura. n.º 266 (9 mai. 1896). [Consult. 26 fev. 2026]. Disponível na internet: https://arquivo.correiodoribatejo.pt/2022/03/31/correio-da-extremadura-no266-09mai1896/
- ORTIGÃO, Ramalho – A torre das Cabaças. [Em linha] Correio da Extremadura. n.º 265 (2 mai. 1896). [Consult. 26 fev. 2026]. Disponível na internet: https://arquivo.correiodoribatejo.pt/2022/03/31/correio-da-extremadura-no265-02mai1896/
- A Torre das Cabaças: Mais um protesto contra a projectada demolição deste monumento. [Em linha]. Correio da Extremadura. N.º 1820 (20 mar. 1926). [Consult. 26 fev. 2026]. Disponível na internet: https://arquivo.correiodoribatejo.pt/2022/04/20/correio-da-extremadura-no1820-20mar1926/
- Ministério da Instrução Pública – Direção Geral de Belas Artes – 3.ª Repartição. (1928) – Decreto n.º 14985, de 3 de fevereiro de 1928. [Em linha] Diário do Governo, Série I, n.º 28, de 3 de fevereiro de 1928. [Consult. 26 fev. 2026]. Disponível na internet: https://files.diariodarepublica.pt/1s/1928/02/02800/02540255.pdf
- Laurentino Veríssimo. [Em linha] Correio da Extremadura. n.º 2380 (12 dez. 1936). [Consult. 26 fev. 2026]. Disponível na internet: https://arquivo.correiodoribatejo.pt/2022/04/28/correio-da-extremadura-no2380-12dez1936/
- MARTINS, Bertino Martins – Laurentino Veríssimo. Investigador, Músico e Benemérito, morreu há cinquenta anos. [Em linha] Correio do Ribatejo. n.º 4991-4993 (5-19 dez. 1986). [Consult. 26 fev. 2026]. Disponível na internet: https://arquivo.correiodoribatejo.pt/2022/07/19/correio-do-ribatejo-no4991-05dez1986/; https://arquivo.correiodoribatejo.pt/2022/07/19/correio-do-ribatejo-no4992-12dez1986/; https://arquivo.correiodoribatejo.pt/2022/07/19/correio-do-ribatejo-no4993-19dez1986/
Estudos:
- CUSTÓDIO, Jorge, coord. – João do Alporão na história, arte e museologia. Santarém: Câmara Municipal, 1994.
- CUSTÓDIO, Jorge, coord. – Património Monumental de Santarém. Estudos descritivos. Santarém: Câmara Municipal, 1996.
- AMADO, Carlos; CUSTÓDIO, Jorge; MATA, Luís, coord. – Torre das Cabaças, relógio do município. Exposição documental. Catálogo. Santarém: Câmara Municipal, 1999.
- VARZEANO, José – Figuras Ribatejanas. (XLIII) Laurentino Veríssimo. [Em linha]. Correio do Ribatejo. n.º 5449 (13 out. 1995). [Consult. 26 fev. 2026]. Disponível na internet: https://arquivo.correiodoribatejo.pt/2022/08/03/correio-do-ribatejo-no5449-13out1995/
- Quintino, Carlos – O homem que foi castigado por defender a Torre das Cabaças. [Em linha]. Eugostodesantarem (4 mai. 2019). [Consult. 24 fev. 2026]. Disponível na internet: http://www.eugostodesantarem.pt/textos/historias/o-homem-que-foi-castigado-por-defender-a-torre-das-cabacas
- AMADO, Carlos; MATA, Luís, coord. – Urbanidade: 150 anos de elevação de Santarém a cidade. Santarém: Câmara Municipal, 2021.
- Moreira, Maria Teresa – A Biblioteca Camões em Santarém. [Em linha]. Mátria Digital – Revista do Centro de Investigação Prof. Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, 9 (2021), 285-303. [Consult. 26 fev. 2026]. Disponível na internet: https://matriadigital.cm-santarem.pt/index.php/ensaio
Notas:
[i] Este eclesiástico, também natural de Santarém (S. Nicolau), nascera a 28 de janeiro de 1784 e fora ordenado presbítero a 22 de maio de 1807 no Paço da Rainha, à Bemposta, pelo então nomeado bispo de São Paulo D. Miguel da Madre de Deus da Cruz.
[ii] Joaquim Guedes Amil faleceu a 12 de janeiro de 1896. À data do óbito era viúvo da avó materna de Laurentino Veríssimo.







